Há muito que ouvimos falar na importância que o tipo de relação entre pais e filhos tem no desenvolvimento das crianças. Hoje sabemos que esta relação é um aspeto fundamental no desenvolvimento saudável dos mais pequenos, quer a nível emocional, quer a nível cognitivo. Isto porque a qualidade dos afetos tem influência sobre o desenvolvimento global da criança e ajuda a definir as suas emoções, relações, pensamento, aprendizagem e comportamento ao longo da vida.

Claro que, socialmente, há algumas coisas que nos vamos habituando a ouvir e que por vezes motivam uma certa inveja entre os pais, porque um brinca mais, porque o outro impõe mais regras e desempenha mais vezes o papel do mau da fita, porque… porque… Os “porques” são muitos!

Ouve-se muitas vezes (principalmente da parte de algumas mães – perdoem-me esta generalização um pouco injusta) a expressão de que os pais são os companheiros de brincadeira enquanto as mães são as responsáveis pelas tarefas “mais sérias” associadas ao desenvolvimento dos petizes. Colocando à parte quaisquer considerações mais ou menos misóginas associadas a esta ideia e o que isso deveria implicar em termos de reflexão social, numa sociedade em que os papeis de mães e pais estão (e devem estar) em constante alteração, vamos pensar um pouco no papel específico do pai e em até que ponto ser apenas companheiro de brincadeira é de facto vantajoso.

De acordo com um estudo publicado em dezembro de 2018, no Journal of Family Psychology, há diferenças significativas a ter em conta em função dos dias escolhidos pelos pais para brincar com os filhos. Aparentemente há bons motivos para brincar em dias de brincar e cuidar em dias de trabalho.

Os investigadores que realizaram este estudo concluíram que os pais que, nos dias de trabalho, realizam tarefas relacionadas com o cuidado da criança, desenvolvem uma ligação mais forte com os seus filhos. Apesar de esta ideia ser mais ou menos senso comum, a novidade está no facto de haver uma diferença no que diz respeito aos dias em que os pais estão com as crianças a brincar ou a realizar tarefas de cuidado. 

As conclusões deste grupo de investigadores foram que:

  • Os filhos de pais que dedicavam tempo em dias não úteis (fins de semana e férias) a atividades divertidas e centradas na criança, como jogos ou visitas ao parque, evidenciavam uma vinculação mais segura.
  • Nos dias úteis (dias da semana), no entanto, o envolvimento do pai no cuidado estava relacionado a uma vinculação mais segura, enquanto o envolvimento do pai nas brincadeiras estava relacionado a uma vinculação mais insegura.

Os pesquisadores sugerem a hipótese de que as crianças veem os pais que cuidam dos filhos durante os dias de trabalho como fontes confiáveis de apoio emocional. 

Contudo, isto não quer dizer que brincar com os petizes é algo mau! Importa dizer que, em dias não úteis, quando há mais tempo, as brincadeiras também promovem uma vinculação segura.

Mais do que dizer-nos que devemos ter um horário e uma divisão rígida entre os dias de trabalho e os dias de brincar, o que a investigação científica está a dizer-nos é, mais uma vez, que é importante que passemos tempo com os nossos filhos e que não são apenas as brincadeiras que contribuem para que eles gostem de nós e estabeleçam connosco uma relação significativa. Mais importante: devemos ter consciência de que há momentos para brincar e momentos para cuidar e, principalmente, que os pais que cuidam nas alturas certas podem conseguir mais retorno em termos de relação de vinculação com os seus filhos que aqueles que apenas brincam com eles.

Principalmente para os pais separados em que algumas vezes há a tentação para querer ser mais cool e brincar mais que o outro progenitor, este estudo pode representar um alerta no sentido de mostrar que, aquilo que leva a que seja desenvolvida uma relação de vinculação, está longe de ser apenas a brincadeira, mas, nos dias certos, ser cuidador representa uma excelente oportunidade de estabelecer uma relação forte e saudável com a criança. 

Fontes:

https://www.apa.org/monitor/2019/10/inbrief

https://psycnet.apa.org/buy/2018-50197-001
Categorias: Parentalidade

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